A Universidade Federal de Lavras, a Fake News e o Fascismo disfarçado sob o nome de Escola Sem Partido.

Nesta última semana, a Universidade Federal de Lavras (UFLA) se viu envolvida numa grande confusão.

O caso:

Historicamente, na primeira semana de aula, a UFLA oferece uma programação inteiramente dedicada aos calouros. É uma forma do calouro se familiarizar com ambiente físico da universidade, já que as aulas são descentralizadas, e com a comunidade acadêmica. Participam como organizadores: a reitoria, as pró-reitorias, centros acadêmicos, diretório central dos estudantes, associação dos docentes, associação dos técnicos administrativos, grupos PETS, coordenadorias de cursos, etc. Portanto, é uma semana bastante cheia de atividades e com temas diversos, cabendo ao calouro escolher em qual atividade participar, ou até mesmo não participar. Nada acontece se faltar uma tarde, ou um dia todo, por exemplo. No entanto, a participação no contexto geral da semana é obrigatória, pois já são considerados dias letivos. O que regulamente isso é RESOLUÇÃO CEPE N 042, que estabelece normas gerais do ensino de graduação da UFLA. Caso o estudante necessite ausentar-se durante as duas primeiras semanas letivas, deverá ter sua justificativa de ausência comunicada.

Na programação deste ano letivo de 2018/1, está previsto para um dos dias, a seguinte grade:

  • Controle Social e Garantia de Direitos
  • Gênero e Sexualidade
  • A política de Cotas na Universidade Brasileira
  • Gênero e Trabalho
  • Questões de Gênero
  • Mulheres fazem e contam a História: Saberes, Ciência e Movimentos Sociais
  • História das Lutas do Movimento LGBT

A presença destes temas na “semana do calouro” levou o movimento “escola sem partido” a entrar na justiça para impedir que a presença no evento seja compulsória, ou seja, obrigatória.

Conforme dito acima, a presença não é, e nem nunca foi obrigatória, nada acontece ao aluno que não participar de um dia destas atividades. Outra opção é participar e colocar o seu ponto de vista caso seja divergente.

O fato é que todo o contexto foi desvirtuado, gerando manchetes em jornais tais como:

“Universidade vai expulsar calouros que não assistirem a palestras sobre “gênero” e “movimentos LGBT””

“Reitor obriga alunos a participarem de oficinas sobre ‘diversidade e diferenças’

O Sindicato dos Técnico-Administrativos das Instituições de Ensino Superior de Lavras – SINDUFLA publicou a seguinte nota:

“Sob o falso pretexto de combater a “doutrinação” nas universidades alinhada com uma determinada ideologia política, é cada vez mais frequente a ação de grupos conservadores que querem impingir sua própria visão de mundo, ameaçando quaisquer iniciativas que vão contra suas crenças e seus valores. Com intuito claramente intimidatório, tais ações colocam em risco a autonomia universitária, a liberdade de cátedra e os fundamentos de uma sociedade plural e democrática.

Em um país cujos índices de violência contra grupos minoritários, composto por mulheres, jovens negros/as, pobres, pessoas LGBTI, povos indígenas, entre outros, figuram entre os mais altos do mundo; em um pais onde se observam números alarmantes de casos de machismo, racismo, homofobia nas mais diversas instâncias sociais, inclusive dentro das universidades, é de se espantar que temas voltados para a temática de gênero, política de cotas e direitos humanos sejam considerados como sendo “pautas de esquerda” quando, na verdade, deveriam ser uma causa defendida por todos os cidadãos e cidadãs, independente de ideologia político-partidária”

A direção da UFLA também publicou uma nota lamentando as interpretações equivocadas sobre a programação da recepção de calouros 2018/1:

Neste período letivo, o tema a ser abordado, em parte das atividades, tem foco em questões humanistas e cidadãs, como as de gêneros, garantia de direitos e políticas de cotas. A temática foi escolhida de acordo com o Pacto Nacional Universitário pela Promoção do Respeito à Diversidade, Cultura de Paz e Direitos Humanos, do qual a UFLA é signatária, e com as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos, do Conselho Nacional de Educação, Ministério da Educação (MEC).

A UFLA é uma das mais qualificadas universidades do País por todos os indicadores disponíveis. Por princípio, não trata de questões partidárias. Dedica-se ao ensino de qualidade, à geração de conhecimentos, ao desenvolvimento de tecnologias e produtos inovadores e à extensão, buscando oferecer retorno à sociedade. Por agir sob tais princípios, os temas das oficinas são tratados de maneira isenta e técnica, com espaço às mais variadas manifestações dos estudantes. No entanto, os temas listados a seguir têm sido classificados por algumas pessoas como se fossem posicionamentos de esquerda radical, causando distorções que estão confundindo a população, quando, na verdade, trata-se de assuntos puramente de interesse humano, sem qualquer conotação partidária”

O movimento escola sem partido é um projeto criado para combater a ideologia nas escolas do Brasil. Só que ele mesmo é profundamente ideológico e pretende, na verdade, definir uma única ideologia possível para os professores. Flerta perigosamente com o fascismo, ao proibir a divergência e a diversidade ideológica. Quem fala sobre isso é o historiador Leandro Karnal.

 

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