Por que o suicídio de um doutorando da USP não me chocou?

Quando eu li pela primeira vez a notícia que um estudante de doutorado tirou a própria vida no laboratório em que trabalhava no Instituto de Biociências da USP senti uma tristeza profunda.

Eu não o conhecia pessoalmente, e ainda assim podia sentir a dor que ele sentira. O que poderia obrigá-lo a dar esse passo extremo? De repente, você pensa: “isso poderia ter sido comigo”.

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Sabemos o tipo de pressão pela qual  passam pós-graduandos em grandes centros de pesquisa, tendo eu mesmo sido vítima.   Estudantes de pós-graduação pagam um preço muito alto para atingir esse grau (mestrado/doutorado), e apenas alguém que esteve no sistema pode entender isso.

Mas, ninguém quer falar sobre esse preço. É amplamente aceito na academia que esse preço deve ser pago. Por que a perda de uma vida jovem e brilhante não nos choca? Por que essa apatia?

Eu realmente espero que algumas pessoas importantes estejam lendo isso, porque há muito que esse tema precisa ser abordado em nosso sistema acadêmico. Essa atitude de aceitação e apatia em relação à doença mental na academia tem que mudar.

Um estudo em Berkeley (2005) descobriu que 47% dos estudantes de doutorado estiveram deprimidos em comparação com uma média de 6,7% na população adulta. Mais recentemente um estudo realizado na Bélgica (2017) mostrou que  32% dos estudantes de doutorado estão em risco de ter ou desenvolver um transtorno psiquiátrico comum, especialmente a depressão. 

Destaquemos algumas questões enfrentadas por pós-graduandos ao longo do percurso:

A idade em que realizam estudos de pós-graduação

 A maioria das pessoas que conheci na pós-graduação tinham entre 24 a 30 anos de idade. No auge de sua juventude, quando outras pessoas têm essa idade estão a subir degraus em suas carreiras, namorando, se casando, tendo filhos, enquanto os pós-graduandos estão presos em um quarto cheio de literatura científica, incapazes de ver a beleza do mundo à sua volta. Eles perdem os melhores e mais vitais anos de sua vida para pesquisar, e há pouco do que podem fazer para se recuperar dessa perda. Muitos estudantes, especialmente meninas, estão sob pressão para se casar e começar uma família. Alguns deles que se casaram durante este tempo agora têm uma série de novos problemas para lidar, lidar com um novo casamento ou ficar longe de seu cônjuge, além do estresse de estar em um programa de doutorado.

A incerteza inerente à pesquisa

 A pesquisa é inerentemente incerta, o que torna extremamente difícil para as melhores mentes. Não há garantia de que o problema em que você esteja trabalhando terá uma solução. Você poderia passar 10 anos trabalhando em um problema incapaz de encontrar uma solução. Se o seu problema for difícil, você pode ser conduzido até um ponto em que você não se sente mais competente ou digno de resolver. Seu objeto de pesquisa te consome por inteiro, e você não consegue ver além do fracasso que você enfrenta neste momento.

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A imensa solidão

 A maioria dos estudantes de doutorado tem vidas extremamente solitárias, porque suas pesquisas dependem de seu árduo trabalho. Você passa a maior parte do seu tempo tentando decifrar os códigos, aguardando a realização de um milagre, que levarão a uma publicação internacional e, eventualmente, seu diploma. Você realmente não tem tempo para amigos ou familiares, o que novamente contribui para o seu estresse. 

O poder está em mãos de alguns

Em um programa de doutorado, o orientador é todo poderoso. É verdade que existe um comitê local, mas estes não intervém. Em caso de falha, é sempre culpa do aluno, e não do seu orientador. Se o seu orientador for muito difícil você sofrerá constantemente de ansiedade, o que pode levar a uma pane. Se você tiver sorte, você terá um orientador dedicado a pesquisa e determinado a ver seu diploma.

E sim, o abuso de poder acontece. Assim como acontece em qualquer lugar onde uma pessoa se torne poderosa. Podem ser poucos os casos, mas os alunos sofrem imensamente se tiverem sido designados um orientador desta categoria.

Falta de serviços de aconselhamento bons e transparentes

 Embora a maioria dos institutos ofereça serviços de aconselhamento, os estudantes têm medo de procurar ajuda. Eles temem que suas queixas possam ser transmitidas ao seu orientador , que é provavelmente a força motriz por trás de sua ansiedade. Eles não têm um ombro confiável para chorar e se abrir quando mais precisam disso.

 A apatia da academia em relação a saúde mental

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Aparentemente a depressão é tratada como “normal” na academia. Mesmo aqueles que não estão na academia estão aceitando o fato de que as pessoas que estão em um programa de doutorado vão ficar “loucas” devido a estudar demais. Essa atitude precisa mudar. O suicídio de um estudante deve nos chocar e surpreender. Não pode ser tratado com o descaso como vem acontecendo. Deixemos aqui a solidariedades para a família e para as famílias de todos os jovens, que tiveram a morte como caminho de fuga. Somente quando uma pessoa vê a total desesperança, ela sente que a morte pode ser uma opção melhor.  A acadêmia precisa refletir sobre isso!

Fazer um doutorado é bastante difícil, mas existem caminhos possíveis. Você que tem encontrado dificuldades, procure ajuda, não sofra suas angústias sozinho. Não permita que sua desesperança o consuma. Você é amado e querido. Sua vida tem um propósito imenso. Não desista!

Leia também : Os ciclos de um professor/pesquisador

 Este texto foi traduzido e adaptado de:  Why The Suicide Of A Phd Student At IIT-Delhi Did not Surprise Me

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